Crônicas de Bolso: Verdejar de Grama - Decidueye (Final)

Alola, pessoal!

Preparados para descobrir o último mistério da saga da Gardevoir Mawile? Quando um trauma do passado ressurge, haverá colapso: seja do traumatizado ou do trauma em si. Salvação ou perdição para Gardevoir? O que Lord Bisharp e Clefable têm a ver com a morte de Gallade? Como Mawile está ligada a essa história? Preparem-se para o déjà vu. ;)

   A crônica de hoje é um prato especial para os fiéis leitores da saga da Mawile! Mas não se preocupem, quem não leu todos os pedaços ainda vai conseguir entender a história! ^^

   Aposto que vocês não fazem ideia de quem matou o Gallade! Mas vamos logo à história, que ela está cheia de reviravoltas mirabolantes! A trilha sonora de hoje está no mesmo link da semana passada, basta clicar AQUI. Tem mais de uma hora de música, eu duvido que vocês tenham escutado tudo na Parte 1! xD

O quão importante sua família é para você?


  Verdejar de Grama: Decidueye (Final)



   Gardevoir tomou a flecha e a partiu ao meio, estava confusa e não conseguia pronunciar uma palavra sequer. Lord Bisharp estava, possivelmente pela primeira vez, apavorado, não sabia se havia tomado a atitude certa, mas ele nunca havia escondido nada de Gardevoir também. A fada balançava a cabeça negativamente, fechava os olhos e parecia querer chorar. Ela levou as mãos à cabeça, que parecia doer. Era como se uma sucessão de imagens dolorosas do passado viesse à mente de Gardevoir e ela revivesse a dor do dia de seu casamento. Vendo que sua amada estava à beira de um colapso, Bisharp a tomou com força pelos braços e a chamou à razão, resgatando-a de seus próprios pensamentos.
   Embora o choque não tivesse passado por completo, Gardevoir já aparentava recobrar suas faculdades mentais. Lord Bisharp ficou ao lado de Gardevoir durante aquela tarde, mas logo retomou suas atividades de patrulha quando a noite anunciava sua chegada. Gardevoir fingiu retomar suas leituras rotineiras, mas apenas passava os olhos pelas frases, folheava as páginas enquanto sua cabeça elaborava estratégias.

   — Garde, retornarei ao meu posto. Se meu auxílio for necessário, não hesite em me procurar. Fique bem, todos nós aqui gostamos muito de você.

   Gardevoir balançou a cabeça positivamente, mas guardava dentro de si certa ansiedade. Ao ouvir a porta fechar, Gardevoir aguardou alguns breves instantes até que Lord Bisharp estivesse suficientemente longe. O livro que estava em suas mãos caiu no assento de sua poltrona tão logo a fada se teletransportou para o exterior da residência. A antiga imperatriz tinha pés leves e delicados, pairava no ar, dominava graciosamente a arte da levitação, seria fácil seguir Lord Bisharp. Certamente, o cavaleiro a levaria... até ele.



   Como esperado, Lord Bisharp seguiu na calada da noite em missão secreta até as masmorras do grande carvalho dourado, onde lá encontrou a imperatriz Clefable a segurar um castiçal, que pouco iluminava seu rosto. Gardevoir respirava com muita cautela para que não fosse descoberta, mantinha-se atenta a toda a movimentação no local, embora quase ninguém acessasse aquela área. Lord Bisharp cochichou rapidamente com Clefable e ambos entraram na cela onde se via uma estranha figura com um manto e um capuz.
   Antes que Clefable fechasse a porta, Gardevoir lançou uma pequena esfera de poder oculto na fresta. Desatenta, Clefable não percebeu que a porta não bateu, ficando apenas encostada, o suficiente para que Gardevoir visse tudo o que acontecia lá dentro.
   Havia duas cadeiras vazias, uma mesa e nada mais. Clefable colocou o castiçal sobre a mesa e o trepidar da chama da vela fazia um jogo de sombras, revelando e ocultando a face do prisioneiro. Clefable se sentou em uma das cadeiras vagas e Lord Bisharp se aproximou do prisioneiro, removendo seu capuz aparentemente feito de folhas e revelando a face da coruja. Gardevoir franziu a testa e automaticamente lançou um olhar ameaçador ao conhecer o arqueiro assassino.
   O interrogatório começou. Lord Bisharp precisava de respostas e Clefable era testemunha do crime. O arqueiro parecia não demonstrar emoções, sequer estava apreensivo, parecia certo de sua conduta. Ele estava com as asas amarradas por uma fechadura mágica nas costas da cadeira, completamente imobilizado. Lord Bisharp solicitou informações a respeito dele e o arqueiro surpreendentemente não fugiu de nenhuma pergunta, sua solicitude era bastante suspeita.

— Meu nome é Decidueye. Chefe do bando Sombras da Floresta. Já estou velho, não me importo mais com o que possa me acontecer, não me arrependo de nada do que fiz ou deixei de fazer. Aceito o destino que me oferecerem.



   O tom grave e soturno de Decidueye mostrava sua abnegação e frieza. Ele mantinha seu rosto erguido e sem expressão alguma. Gardevoir engolia a seco, seu autocontrole era formidável, já teria feito justiça com as próprias mãos em outros tempos.

   — O que vocês chamam de mercenários e baderneiros, eu chamava de família. Muitos de nós eram apenas poeira tanto para as fadas quanto para o resto do mundo. Vocês devem saber que a floresta foi criada para ser um labirinto, era um feitiço. Para proteger esse povo esnobe, qualquer um que entrasse na floresta por engano já estava fadado à morte certa. E eu pergunto, isso é justo? Aprendemos a sobreviver em meio à floresta, precisamos conhecer seus encantos para poder viver. As árvores mágicas nos impediam de entrar e de sair, mas também nos protegiam de ambos os lados dessa guerra de egos.

   — Não se atreva a se passar por um pobre desvalido, sei muito bem de seus crimes e de sua lamentável reputação, arqueiro sem honra! Se depender de mim, você apodrecerá nessa masmorra! Poupe-me de sua história duvidosa, eu exijo a verdade! Como foi que você conseguiu entrar no Reino das Fadas e passar pela floresta? Quem encomendou o crime? Eu sei que vocês aceitam esse tipo de trabalho por recompensas, confesse!

   — Há! Acho que você sabe muito menos do mundo do que julga saber, nobre cavaleiro. Onde você estava enquanto defendia seu estimado Reino de Metal? Do lado dos poderosos ou do povo? Não precisa responder...

   — Ora, seu...



   Lord Bisharp cerrou o punho e ameaçou Decidueye, mas Clefable interveio para que o depoimento continuasse. Gardevoir não conseguia esconder a satisfação ao ver Lord Bisharp quase perder as estribeiras, ela mesma queria ter feito aquilo.

   — Eu nasci muito longe daqui, nunca tive um lugar para chamar de meu, aprendi a caçar para conseguir minha própria comida. Ainda era jovem quando me perdi durante a noite e achei que aquela floresta poderia me servir de abrigo. Ledo engano... Teria sido o meu fim se eu não tivesse conhecido outros na mesma situação, ou talvez mais próximos do fim que eu.  Percebi que era fácil se perder ali sozinho e tive a ideia de unir forças com os outros desafortunados. Foi assim, ensinando e aprendendo, cada um ajudando a si e aos outros, que os Sombras da Floresta surgiram. Transformamos nosso fim em esperança. Passamos longos anos vivendo nas sombras, sem sequer saberem de nossa existência. Criei meus filhos sob minhas asas, meus três Rowlet e Dartrix. O bando cresceu forte e prosperou, nunca demos as costas para nenhum dos que vocês tratavam como lixo. O problema é que... diferente de como vocês achavam no passado, nem tudo são flores.

   — Decidueye, creio que você tenha bastantes memórias sofridas do passado, mas tente colaborar, não vamos perder tanto tempo aqui. Conte-nos o que sabe sobre o ocorrido que nos interessa. Não vou poder conter Lord Bisharp caso ele perca a paciência...

   Clefable tentava intervir para tirar alguma informação útil da coruja, mas os anos de vida na floresta não o deram apenas boa mira e destreza com o arco, Decidueye perfurava com as palavras também.

   — E o que vocês têm feito senão isso? Veja, a imperatriz acabou de comprovar tudo o que eu havia dito. Um evento interessa mais a vocês do que toda uma história de vida. Vocês insistem em se enganar, permanecem no erro. Isso é inconcebível! Nada mais importa! Vocês sempre foram iguais, de tão iguais entraram em guerra. Um é a cópia do outro, vocês só se importam consigo mesmos! Vocês não podem perder seu precioso tempo hoje, mas eu posso ficar aqui mofando pelo resto da vida? Só porque eu assumo a culpa por ter matado aquele guerreiro, o Gallade?


   Não dava mais para segurar. Mesmo que estivesse aberta, a porta foi escancarada de tal forma que parecia ter sido arrombada. De fato, a porta da cela até entortou um pouco, tamanha a violência com que Gardevoir entrou ali. Um vento frio percorreu o local, apagando a chama da vela no castiçal. Clefable se assustou tanto que até caiu da cadeira. Gardevoir voou para cima de Decidueye tão rapidamente que até Lord Bisharp se desequilibrou e deu com as costas na parede. Gardevoir começou a gritar com o arqueiro, nunca havia elevado tanto a voz para alguém.

   — É justo, sim! Seu imundo, podre, arqueiro vil! Se eu pudesse, te removeria dessa existência que você tanto lamenta agora mesmo! Só não ponho um fim a você porque minha vontade de te ver sofrer é maior ainda! É justo que você pague pelos seus crimes, sim! Eu não sou Bisharp, nem Clefable, nem Gallade, eu sou seu pior pesadelo. Você sabe o que você fez? Você destruiu a minha vida, você me transformou em um monstro! Você matou o amor da minha vida no dia do meu casamento! Você tirou a vida da pessoa mais pura e honesta que eu já conheci na minha vida, se é que você sabe o que é isso! Minha vontade é de fazer queimar cada uma de suas penas...

   Gardevoir pegou Decidueye pelo pescoço com uma mão e o fez com tanta força que ele sequer conseguia respirar. Com a outra, cerrou o punho e o posicionou bem próximo ao rosto do arqueiro, ameaçando-o com seu soco de fogo. Clefable e Lord Bisharp tentaram conter o impulso de Gardevoir, que claramente não deveria estar ali. Ela finalmente cedeu ao ver que Decidueye não conseguia falar, então o soltou para obter as respostas que precisava.

   — Já terminou? Ora, veja... Admiro sua força e tenacidade, antiga imperatriz, até compreendo esse despautério. A morte de Gallade foi um erro, não era para ter acontecido, se isso lhe conforta de alguma maneira. Eu nunca errei uma flecha, que dirá errar o destino de um alvo. Respondendo às perguntas do cavaleiro primeiro, uma vez que você conhece a floresta e sabe como ela funciona, fica fácil usar sua dinâmica a seu favor. Nunca autorizei meu bando a invadir a terra das fadas, pois sabia que isso traria problemas. No entanto, como eu estava dizendo, havia muitos sob minhas asas, era difícil controlar todos o tempo todo. Meu único erro, talvez, foi como pai. Esse é meu único crime, fui permissivo demais com Dartrix e não notei quando ele se tornou... tão ardiloso. Sempre acreditei que ele poderia seguir meu exemplo, como todos os outros membros do Sombras da Floresta, mas eu estava muito enganado. Dartrix me desafiava, como pai e como chefe, desonrava meus métodos e infelizmente herdou minha liderança. Foi graças a ele que nosso bando nunca mais foi o mesmo, ele convenceu alguns dos outros membros de que burlar as regras seria mais vantajoso e começou a atacar dentro e fora da floresta, fosse rico ou pobre, e aceitava missões criminosas. Ele só seguia sua própria ambição... E eu... eu não consigo sentir raiva dele, só remorso e culpa. Sinto culpa por não ter aberto meus olhos para a índole de Dartrix antes e ter sido mais enérgico com ele! Eu falhei... eu falhei muito...


   Gardevoir ouviu cada palavra de Decidueye, mas estava cega de ódio, queria vingança. Ela não acreditava em nada daquilo, parecia uma cena, mas uma cena muito bem montada. Gardevoir tentou ler a mente de Decidueye, mas não conseguia se concentrar, embora percebesse que as emoções do arqueiro lhe corroíam e eram genuínas, algo que ela mesma conhecia muito bem. Decidueye fechou seu capuz de folhas e respirou audivelmente, recompondo-se para continuar a falar.

   — Dartrix conseguiu separar o bando e formou seu próprio clã, mas não durou muito tempo. Do jeito que viviam, era questão de tempo até que todos fossem presos ou acontecesse algo pior a eles. O problema é que ele era meu melhor caçador, nosso bando perdeu o moral e as atividades ilícitas do meu... filho... alarmou as autoridades a nosso respeito e até mesmo o meu bando, que não tinha cometido nenhum crime, foi perseguido.

   — Eu já ouvi muito de sua vida, basta! Se quiser contar sua história, escreva um livro. Eu quero saber do meu Gallade!

   — Vou relevar sua ironia porque imagino como deve ter sido difícil para você. Gallade morreu por vingança. Como chefe de polícia, ele capturou e derrotou muitas das ovelhas desgarradas do meu bando, aqueles que seguiram Dartrix. Ele certamente não enriqueceu tanto quanto planejou e se viu perdendo cada vez mais membros. Eu não aguentava mais ver meus antigos soldados e meu próprio filho se perdendo assim e...

   — Então você matou meu noivo por ser incompetente como pai!

   As palavras de Gardevoir atravessaram Decidueye de tal forma que, pela primeira vez, o velho arqueiro abaixou a cabeça. Clefable tomou a mão de Gardevoir e ficou dando leves tapinhas nela, como quem pede calma. Lord Bisharp pôs a mão no ombro de Gardevoir, mas se sentia secundário ali, logo ele que sempre esteve em primeiro lugar em tudo, percebeu que sempre seria o segundo para Gardevoir.


   — Da mesma forma que você quer me matar, Dartrix quis matar Gallade. E assim o fez. Ele preparou uma flecha de metal, pois sabia que a culpa recairia sobre os velhos inimigos das fadas e passaria impune. Não sei como ele ficou sabendo da data do seu enlace matrimonial, senhorita, pode ter sido ao acaso ou ele pode ter ouvido algum comentário. O fato é que ele conseguiu... Argh! Como me dói dizer isso! Eu não consigo admitir isso nem para mim mesmo, mas... vocês sabem que foi ele. Dartrix herdou de mim o ataque a longo alcance e a capacidade de passar despercebido. Eu não fui testemunha ocular do que aconteceu, mas pelas características do ocorrido e do modo de agir de quem atirou a flecha, só eu e Dartrix nos encaixamos na descrição.

   — Eu mesma fui obrigada a aprender que não podemos ter domínio de tudo o tempo todo, não consigo deixar de sentir raiva de você, arqueiro, mas eu sei que é com outro que eu devo tratar... Onde está Dartrix?

   Lord Bisharp arregalou os olhos por um instante e tentou interromper Gardevoir, parecia bastante afoito, mas a fada queria ouvir o que Decidueye tinha a dizer. Clefable, tão distante, é a que mais parecia sentir o peso no ar. Não estava envolvida em nenhum dos dois lados diretamente, mas sentia o quanto a mágoa e a revolta podem fazer com que uma vida tome rumos indesejados...

   — Dartrix está morto.

   Decidueye não conseguiu mais conter suas emoções, as lágrimas lhe escapavam por entre as folhas de seu capuz. O profundo lamento do velho arqueiro o fazia chorar a ponto de tremer o corpo.

   — Dartrix se sentiu poderoso depois de ter feito o que fez. Embora perdesse um a um cada um de seus seguidores, ele não se importava com ninguém, conseguiu acumular algumas riquezas e isso apenas o tornava ainda mais prepotente e audacioso. Ele foi morto ao tentar roubar uma joia da realeza de Metal, uma pedra preciosa destinada à princesa. Um item extremamente raro, poderoso e, logicamente, valioso. Ele se aliou a alguns soldados transgressores do Exército de Metal para forjar o roubo da joia, provavelmente tentou ludibriar os comparsas, mas todos sabem qual é o lado da corda que arrebenta primeiro. Tive o desprazer de encontrar o corpo de Dartrix na floresta. Creio que o jogaram ali para que não houvesse pistas do plano que tramavam, ouvi dizer que a joia foi recuperada, afinal ela foi usada quando vocês travaram aquela batalha ridícula, um verdadeiro massacre. Se não fosse por um garoto parecido com o cavaleiro e uma curiosa criatura roxa, acho que eu teria perdido a fé nos outros definitivamente.

   — Todos nós precisamos aprender a conviver e construir um mundo melhor, certo? Não precisamos nos culpar por isso. Lord Bisharp luta por isso, Gardevoir fez o que fez para cuidar de quem ela ama e você, Decidueye, só queria cuidar daqueles que... não têm ninguém que olhe por eles. Visões diferentes motivadas pelo desejo de cuidar. Eu sinto muito pelo seu filho, mas até agora não entendi o motivo de você ter aceitado carregar uma condenação que não lhe cabe...


   Surpreendentemente, Clefable era capaz de falar coisas de uma sabedoria ímpar. Ela havia enxergado além de todos ali. Gardevoir e Lord Bisharp pareciam rejeitar a comparação com Decidueye, mas era inegável que os três eram mais semelhantes do que gostariam.

   — Vejo que o Reino das Fadas aparentemente está em boas mãos. Eu... serei sincero, não tenho mais para onde ir. Vivi quase a vida toda na floresta e já me decepcionei muito. Quando a floresta se desfez, meu bando não tinha mais para onde ir. Alguns voltaram para suas famílias e outros simplesmente se perderam no mundo ou foram capturados como mercenários. Meus Rowlet já tinham idade para tomar suas próprias decisões e foram viver em uma floresta comum, próximo a uma caverna. Eu poderia ter ido com eles, mas queria me despedir de Dartrix primeiro. Fiquei sozinho, sem rumo, na companhia de uma culpa que nunca saiu do meu coração. Quando um filho erra, a culpa é sempre do pai. Eu não soube criar nem educar Dartrix corretamente, é por isso que eu aceito a punição que preferirem. Se for de sua vontade, antiga imperatriz Gardevoir, eu quero pagar pelos crimes de meu filho nesta cela.

   Gardevoir estava em choque, sabia que tudo aquilo era verdade, mas Lord Bisharp a impediu de dar um veredicto. Ele mal sabia, mas carregava também uma culpa consigo. Lord Bisharp se ajoelhou perante Gardevoir e Clefable e dirigiu a voz a Decidueye.

   — Fui eu quem matei Dartrix. Se não fui eu, certamente foi um de meus soldados a meu mando. Fosse honrado ou não, era a mim que eles deviam obediência! Não me lembro do ocorrido, não me lembro de ter enfrentado um arqueiro com penas, mas... eu já travei tantas batalhas que é impossível de lembrar. Foi quando conheci Pancho, quando quebrei minhas lâminas e estava em busca da Mawilite. Sinto muito, Decidueye. Uma morte não deve pesar sobre a lâmina de um cavaleiro no combate ao crime, sei que a justiça não é escrita com sangue, mas... eu não pude fazer nada...


   Gardevoir levou as mãos à boca, deu dois passos para trás e olhou horrorizada para Lord Bisharp. Ela nunca o havia visto se prostrar de tal forma por uma morte que ele nem sequer causou diretamente. Decidueye já havia recuperado sua inexpressividade de costume, já havia chorado além da conta, principalmente porque não queria ter sequer começado. O arqueiro olhou Lord Bisharp nos olhos, encarava-o, atravessava sua armadura com um olhar que perfurava mais que todas as suas flechas. Então, Decidueye fechou os olhos.

   — Ele procurou isso. Se não fosse você ou um de seus soldados, seria outro. Não havia outro destino. Tardaria, mas a história seria a mesma, cavaleiro. Compreendo sua dor e admiro sua honra. E quanto a você, senhorita? Qual será o meu destino? Estou em suas mãos.

   Decidueye dirigia novamente a palavra a Gardevoir, gesticulando o mínimo que podia, mostrando que já estava ali, amarrado e indefeso, só faltava Gardevoir finalizar o que mais quis ao longo do tempo. A coruja já não sentia mais as asas, amarradas tão firmemente que já estavam dormentes. Gardevoir não sabia como agir, estava em um grande conflito interno, não sabia mais o que queria. Sua sede de vingança não era mais a mesma. Gardevoir passava a mão na cabeça, tentava ouvir seus pensamentos, mas eles estavam confusos demais. Sua intuição não lhe dizia nada, apenas para não decidir de cabeça quente. O coração de Gardevoir tinha sido ferido, mas ver que há outros como ela, que também carregam uma dor tão grande que chega a dar vontade de desistir, a fez se sentir menos sozinha no mundo. Talvez as coisas tivessem que acontecer do jeito que aconteceram, afinal, ninguém tem como saber como seria se fosse de outro jeito. Gardevoir andou em círculos pela cela, todos ainda estavam digerindo a quantidade absurda de informações obtidas de uma vez só. Aquele interrogatório já se estendia por algumas horas, a vela no castiçal já estava prestes a terminar de queimar.

   — Me ajude, Gallade, me ajude a decidir... Você sempre confiou tanto nos meus julgamentos...

   Gardevoir falava consigo mesma como se estivesse sozinha naquele recinto. Ela sabia que podia espezinhar e torturar Decidueye das maneiras mais impronunciáveis possíveis, pois sua mente era brilhante e criativa o suficiente para isso, mas... isso a faria sentir melhor? Talvez se fosse Dartrix à sua frente, ela não estaria tão hesitante, mas punir alguém que até então se mostrou digno possivelmente a faria sentir pior consigo mesma. Quem tirou a vida de Gallade já havia perdido a vida também e há muito tempo, há tanto tempo que Mawile ainda vivia no Reino das Fadas. Gardevoir passou muito tempo querendo matar alguém que já havia morrido, estar com a faca e o queijo na mão fez a fada ponderar sobre o que ela realmente queria. Naquele momento, Gardevoir percebeu que estava lutando uma batalha ilusória, uma luta sem fim que se alimentava de seu próprio ódio. Gallade não existia mais, Dartrix não existia mais, os anos que ela perdeu não voltam mais e a guerra foi um erro de ambas as partes e ela era responsável por ambas, fosse por instigar as fadas e usar Altaria ou por envenenar o coração de Mawile a ponto de fazê-la também desejar a guerra. Decidueye, Lord Bisharp, Gallade, Gardevoir, Mawile, todos eram vítimas de Dartrix. Uma flecha disparada que atravessou inúmeras vidas.



   — Eu não aguento mais! Eu não quero mais sentir isso, eu não quero mais ser assim! Eu estou... tão cansada, tão fraca. Eu não quero mais viver assim, não quero carregar essa dor, não quero buscar um inimigo que não existe, não quero alimentar o ódio em mim, não quero mais machucar os outros com minhas atitudes e palavras. Eu não sou isso! Gallade, me perdoe... Eu... eu não sei mais... o que fazer. Eu não tenho estrutura para isso. Você é inocente, arqueiro, talvez você nem tenha errado, talvez Dartrix fosse ruim por conta própria e a vida se encaminhou dele. Pelo que vi até agora, um bom exemplo ele sempre teve. Sinto muito por ter sido um monstro e te chamado de incompetente. Sinto muito por tudo o que fiz a todos vocês. Eu achei que o encontro com Klefki tivesse sido suficiente para que eu mudasse, mas isso ainda estava muito enraizado dentro de mim. Fato é que não quero alimentar esse lado meu, quero deixá-lo morrer de causas naturais. Eu te concedo meu perdão e a liberdade, Decidueye! Libertando a ti, liberto a mim.

   A chama da vela apagou. A escuridão tomou conta da cela, mas logo o sol começou a raiar e a luz do dia se expandiu pela masmorra do grande carvalho dourado. Quando todos puderam se enxergar às claras, Clefable e Lord Bisharp viram que o vestido de Gardevoir era branco, como a pureza de suas intenções. Decidueye removeu seu capuz e os olhares da fada e da coruja se cruzaram diretamente. Decidueye sorriu.

   Após alguns instantes, Clefable começou a caminhar em direção à porta, dando a entender que não havia mais nada a ser feito ali. Lord Bisharp estendeu a mão para Gardevoir e ela o acompanhou. Os quatro se encaminharam até a saída, Clefable já estava subindo as escadas quando três deles perceberam que alguém ficou para trás.

   — Eu nunca aceitaria um destino o qual não achasse certo. Não era eu quem precisava do seu perdão, Gardevoir, muito menos do seu veredicto. Eu só fiz isso para poder libertá-la da prisão onde você mesma se jogou. Acredite, fada, eu sei o que é carregar um fardo que parece mais pesado do que tudo, a ponto de tirar o brilho da vida em si. Suba, vá com o cavaleiro e a nova imperatriz e seja feliz, eu fico aqui. Eu vou pagar pelos crimes de Dartrix por decisão própria. Eu confio em cada membro fiel do meu bando, sei que ficarão todos bem. Talvez um dia eu saia daqui, mas, por enquanto, tenho uma pena a cumprir.

   Clefable e Lord Bisharp se viraram para trás e se chocaram com a insanidade de Decidueye. O perdão lhe fora concedido, mas o arqueiro ainda assim preferiu o caminho da punição para expiar crimes que não eram deles. Decidueye realmente tinha um senso muito particular de honra e justiça, os mesmo valores que Lord Bisharp cultivava, mas de forma incompreensível para o cavaleiro. Clefable estava profundamente sensibilizada com tudo o que estava acontecendo, mas, antes que qualquer um pudesse se manifestar, Gardevoir tomou a dianteira com sua tenacidade de costume.

   — Obrigada, Decidueye. Você realmente é um assassino no final das contas, o melhor de todos. Obrigada por assassinar o mal que me atormentava há tanto tempo. A porta ficará aberta para quando quiser sair, sua liberdade só cabe a você. Cuidarei pessoalmente para que tenha comida e água todos os dias, sua punição será concedida na medida exata em que você julgar necessário. Saiba que espero encontrá-lo fora daqui no futuro. Vamos, Clefable, Bisharp. É hora de eu renascer.


E assim termina a história de hoje...


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   Hoje vou ser um pouco breve aqui nas considerações finais, hehe. O que acharam? Eu tentei colocar vários pontos de reviravolta no meio da história (sim, eu sou chegado num plot twist xD), espero que tenha dado um tempero especial a essa saga! Acho que é o milésimo "último capítulo, nunca mais escrevo sobre isso" da saga da Mawile, né? kkkkkkkkk

   Mas sério, não tinha como dizer não. Depois que a Game Freak me fez o favor de trazer um Pokémon ARQUEIRO, eu não tinha como não colocar o Decidueye na história da flecha de metal que matou o Gallade, na boa! xD

   Sobre dicas, acho seguro dizer que o a próxima história é um casamento de Johto com Alola. Agora tentem queimar os neurônios aí pra descobrir, galera! xP

   Valeu, pessoal! Até a próxima! Uma ótima semana para todos nós! ^^









Eu vou ficar muito, muuuito feliz se você clicar aqui! Olha:

 Crônicas de Bolso    Cápsula do Tempo


3 comentários:

  1. Sem. Palavras. Pra. Descrever. Eu. To. Chorando. Preciso. De. Um. Ablaço : (

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  2. Sem palavras.Não sei como descrever a personalidade do decidueye, é muito estranha, única e indescriptível, eu a-do-rei!!!É um cara decidido, calmo, justo (de uma forma estranho e injusto ao mesmo tempo, experiente e claro, um decidueye, ops, quis dizer decidido, kkkk!É tão complexo e gigante essa crônica que buguei mas não dava para dividir o diálogo.E tenho uma sugestão, não duas de continuações, a melhor é dar uma de Marvel e criar uma dimensão em que o Dartrix não matou o Gallade e os filhos desse casal se revoltaram contra eles e fizeram uma gangue, sei lá, um novo reino e iniciaram uma guerra (P.S.:nessa dimensão a gardevoir ainda é uma imperatriz) e a outra é sobre a sobrevivência de decidueye e sua gangue (sei que sobrevivência numa selva já foi usada na crônica do Noctowl, mas não foi o foco dela).E sobre essa crônica, LOL!Você mudou toda a minha ideia mas eu amei essa nova ideia, muito melhor, mas ainda admiro o seu talento e de onde você tira tanta inspiração, meu deus!E eu tenho uma sugestão de crônica de flores de água e sei que é seu inicial de alola favorito:a PRIMARINA que é uma sereia/princesa e está precisando de ajuda porque uma prima invejosa que é uma PRIMArina (badunts, zueeeeiraaa) e não é prima dela necessariamente achei 3 Pokémon candidatos Tapu Fini, Swanna (Swanna conseguem ficar debaixo da água?) e Milotic (vai causar reviravoltas demais por ser tão amada) continuando, a primarina vai fugir do mar e vai procurar um guerreiro/cavaleiro para salvar seu reino do grande feitiço que está criando misteriosas sombras (pode ser gastly ou shellder com o troço preto dentro dele devorando tudo) e ela achou greninja que pode ajudar com seu double team, daí surge uma emocionante batalha e ao salvar o reino de primarina o greninja se apaixona por ela e rola um romance e no casamento ele morre.Zueira, ah não ser que comece a matar noivos durante o casamento, como se não bastasse velhinhas haha!Mas não crie esse costume, por favor!P.S.:Qual é o seu inicial favorito?O meu é tepig.

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  3. Esqueci de dizer que decidueye é paciente e descobri dois motivos por decidueye não querer sair da prisão, não é por ele ser louco (coisa que ele não é) por realmente estar arrependido de ter cuidado mal de dartrix e que se voltasse para sua floresta, a sua gangue estava desunida e abandonada de tal forma que talvez o decidueye não conseguiria sobreviver nela e se vivesse nesse reino (o que a clefable começou a governar) ele não estava acostumado em viver em uma sociedade urbana e não daria muito certo.E pode mandar uma dica de qual vai ser o próximo Pokémon?Quando disse reviravolta quis dizer revoltas.
    Tchau!Mas você ainda não disse qual é o seu nick no Pokémon showdown, o meu é Capitao General || (com a letra l)

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