[Quando] vale a pena terminar um namoro por Pokémon? (Ou, quando se está velho demais para jogar Pokémon TCG?)



**Ela veio até mim com seus olhos brilhantes e com seus 20 anos. Como a temperatura estava elevada nos últimos dias, e como naquela noite estava quase batendo a casa dos 40°C, ela vestia uma roupa leve, uma blusa um pouco decotada e uma saia curta. De um lado para o outro ela andava descalça enquanto seu irmão, embriagado, fazia piadas sobre como parecia que sua irmã havia sido criada “no mato”. 

Como era um convidado, eu apenas estava sentado numa cadeira de plástico branco, rezando para que alguém desligasse aquela música (se é que você considera sertanejo universitário como música) enquanto trazia vez ou outra o copo com refrigerante até a minha boca. Aquela sensação era horrível, eu tinha um torneio de TCG na manhã seguinte e passar o tempo com (naquele momento) minha namorada estava me deixando chateado e desconcentrado. O pior? Eu estava com sono.  E se tem algo que você precisa saber sobre mim, é que eu fico extremamente irritado quando estou com sono. E ficava pior, bastava juntar o barulho/música alta, as últimas fofocas da cidade e várias pessoas entre seus 40 e 50 anos bebendo em excesso ao mesmo tempo em que cuspiam saliva para todos os lados quando gritavam e berravam sobre como algumas pessoas (que não estavam naquela festa, é claro) eram péssimas quando jogavam futebol, a ponto até de cogitar tira-los do time. 

Eu estava a ponto de explodir. Não queria ficar naquela festa, mas bem... era uma comemoração sobre como o irmão da (naquele momento) minha namorada tinha atingido uma meta de vendas na sua empresa. Ele tinha passado dos quarenta anos e tinha uma filha que frequentava, se bem me lembro, a oitava série. Mas não que isso seja importante. A única coisa importante foi a minha despedida, e bem, já tinha tolerado até a metade da festa, e portanto, havia cumprido a minha promessa de ter ficado “um pouco”. Era hora de ir embora.

Eu, em geral, costumo ser cordial. Para tanto, na minha despedida, eu automaticamente informei o motivo de eu estar indo embora na metade da festa, anunciando para toda a mesa com pessoas entre seus 40 e 50 anos: “Obrigado pelo convite e pela diversão, mas tenho um torneio de Pokémon, amanhã”. Talvez tudo estivesse bem se eu tivesse dito “Torneio de futebol”; “Torneio de Pôquer” ou até mesmo “Torneio de Truco”. Mas não. Eu tinha dito Pokémon, e eu sabia o que estava por vir.

O irmão da minha (naquele momento) namorada me olhou fundo e abriu um sorriso amarelo. Eu sabia que ele não gostava de mim, na verdade, eu sempre achei que ele me odiara, e quando aquele sorriso se abriu eu sabia que ele cuspiria alguma provocação, mas que geralmente eu dava de ombros e ia embora. Geralmente...

“Você não acha que já esta velho de mais para ficar brincando de Pokémon?” – Disse ele, claramente com um tom de insulto.

Por um momento eu desliguei meu bom senso. Num único segundo eu pensei o quanto aquele namoro era uma droga e o quanto eu detestava estar cercado por pessoas que não gostavam de como eu vivia a minha vida (principalmente da família dela), não apenas Pokémon, mas todas as minhas “nerdices” em geral. Eu respirei fundo, e tudo o que eu disse e fiz ocorreu espontaneamente:

“Não sei! Você não acha que está velho de mais para ficar escutando sertanejo universitário?” – E eu podia ter dado um sorriso cínico e ter ido embora, mas eu precisava dizer mais... 

“Você não acha que está velho de mais para ficar jogando futebol com essa idade e com esse peso?” – A mesa ficou assustada com a minha reação, mas ainda faltava... eu precisava dar um golpe final...

“Você também não acha que está velho de mais para ficar se embriagando até entortar os olhos e mesmo assim dirigir e colocar a vida da sua esposa, filha e irmã em risco?” – Se fosse uma partida de TCG, teriam sido 3 Pokémon EX’s. Peguei as duas últimas prize’s e venci o jogo. Após isso, apenas lembro de ver seus olhos esbugalhados e a fúria tornando sua pele vermelha como pimenta, se segurando para não avançar contra o meu pescoço. Talvez se ele tivesse bebido uma ou duas cervejas a mais ele realmente tivesse me atacado.

Nunca mais encontrei com nenhum deles. Terminei o namoro naquela mesma noite (meio óbvio, não?). Não me arrependo. Foi como uma ótima e merecida sensação de alívio.** 

Se você joga Pokémon TCG (Trading Card Game) há algum tempo, e principalmente se você for da “velha guarda”, você já deve ter se deparado com algumas pessoas que satirizam esse estilo de vida (isso, antes da febre retomada com Pokémon GO, é claro): ”Você ainda gosta de Pokémon?”; “Você vai jogar cartinhas?”; “Você fica jogando e gastando dinheiro com essas cartinhas?”; “Como assim, você gastou todo esse dinheiro com cartinhas?”.

Sim. Cartinhas isso, cartinhas aquilo. Falou-se por tanto tempo e uma geração inteira foi crucificada por gastar dinheiro e tempo com “cartinhas”, que hoje, o que uma nova geração utiliza como uma piada, na verdade teve um estigma profundo marcado em toda uma velha geração.

Ao passo em que o mundo e as normalidades caminham, jogos TCG deixaram de ser algo para espinhentos e gordos antissociais, para serem jogos de pessoas normais, para nerds. Comecei a refletir sobre a questão de idade versus Pokémon TCG, mas como lhe parece, eu nunca vi uma relação proporcional. Estar mais velho não quer dizer que você deva parar de jogar Pokémon, na verdade, isso também não quer dizer nada sobre ser um jogador competitivo ou um jogador que apenas joga pelo prazer da diversão, tanto online como presencialmente. 

Se não acredita, podemos trazer exemplos de grandes jogadores que já passaram de seus vinte e poucos anos, como um dos melhores jogadores portugueses, Igor Costa, e bem... a maioria de toda a divisão Master. Mas temos também outros jogadores memoráveis que já passaram dos 30 anos, tal como argentino Diego Cassiraga (1983), e tal como um dos jogadores mais lendários de Pokémon TCG, Jason Klaczynski (1985), primeiro colocado no 2015 United States National Championships (Nacional Norte-Americano de 2015). Além disso tudo, a própria “carreira” Pokémon se estende à novas fronteiras, como se tornar um professor e por que também não um emprego na Pokémon Company?  

Eu jogo Pokémon TCG desde meados de 2004 quando comprei meu primeiro deck da EX Fire Red (aquele mesmo com o Pidgeot que tinha Quick Search). Para piorar, eu moro numa cidade do interior, pra piorar ainda mais, onde o setor agrícola e consequentemente de “alma sertaneja” se prolifera, mas pra ficar ainda pior, aqui nunca teve qualquer liga de Pokémon TCG (Estamos resolvendo isso nesse ano). Então acredite, eu fui de uma geração que sofreu com muitas dessas frases, que foi taxado de nerd quando isso ainda não era um sinônimo de “legal” ou “descolado”. Mas também não pense que eu, ou qualquer um dessa velha geração queira reconhecimento sobre o nosso sofrimento simbólico. A única coisa que realmente queremos é que mais pessoas descubram esse jogo, que mais pessoas o queiram jogar, e principalmente que mais pessoas nunca o abandonem por se tratar de algo com prazo de validade, algo no qual se fica velho de mais para jogar. 

Mas eis a minha conclusão: Talvez em algum lugar ou momento da sua vida, uma pessoa lhe pergunte se você não está velho de mais para ficar jogando cartinhas, ou até mesmo pra ficar jogando vídeo game, e quiçá algo relacionado a Pokémon, mas talvez a melhor resposta que você poderia dar, e dessa vez que não ofenda ninguém, seria:


Não sei. Quando se está velho demais para se divertir?
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Saudações, treinadores e treinadoras! Como estou sem Notebook e raramente consigo um emprestado, achei por bem suprir um pouco da ausência do TCG com essa matéria que foi o teste para vaga de Retador. 

E aproveitando a deixa... caso você ainda não saiba, o site Pokémon Blast News está procurando por novos New Editors. Clique aqui e entre no post que trará todas as informações que você precisa saber para fazer parte dessa equipe.

É um recado rápido e bem informal. O tempo é curto. Obrigado por ter lido. Aproveite e comente o que achou. Nos falamos numa próxima... com meu Notebook reparado, eu espero.

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7 comentários:

  1. Eu particulamente não gosto desse tema aqui na pbn.... queria q vocês fossem mais profissionais...

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    1. Obrigado pelo comentário. Não posso fazer nada quanto ao gostos pessoais, mas a intenção da "Namorada" é apenas ilustrar o estigma que muitos jogadores, tanto de Pokémon ou de outros Card Games sofreram. Quanto ao "profissionalismo"... acho que a palavra estaria incorreta... (o mais adequado seria o termo "informativas" ou "objetivas" e quanto a isso não há defesa) Eu produzi a matéria numa intenção de coluna... e convenhamos, colunista é uma profissão (estou falando em termos técnicos estabelecidos na CBO - Classificação Brasileira de Ocupações). Obrigado novamente =D

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  2. Qual sentido?

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    1. Como mencionado acima, em resumo, a questão da namorada se encontra no texto para trazer o exemplo do estigma social sofrido pelos primeiros jogadores de TCG no Brasil. Obrigado pelo comentário =D

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  3. aprenda separar namoro de pekémon pelo amor de deus kkkkkk

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    1. De novo...
      Como mencionado acima, em resumo, a questão da namorada se encontra no texto para trazer o exemplo do estigma social sofrido pelos primeiros jogadores de TCG no Brasil. Obrigado pelo comentário =D

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    2. De novo...
      Como mencionado acima, em resumo, a questão da namorada se encontra no texto para trazer o exemplo do estigma social sofrido pelos primeiros jogadores de TCG no Brasil. Obrigado pelo comentário =D

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