Pokémon GX 010: Indo com o vento

Era como se sua vida fosse feita de coincidências, já que Eusine nunca seguia um rumo pré-definido, simplesmente deixava a vida lhe levar. Bem, se já estava ali...

SAVE 010 - Cidade de Ecruteak
(Indo com o vento)

  O dia estava perfeitamente normal, sol entre nuvens e brisa constante, o que fazia com que fosse mais rápido, sobrevoando a floresta que ficava nos arredores de Violeta. Flutuando ao sabor dos ventos, segurando a sua Jumpluff com uma mão e o binóculo com a outra.


  Eusine possuía vários daqueles instrumentos, mas aquele binóculo era o melhor que já tivera. As lentes de aumento intercaladas davam alcance e precisão absurdos conforme ajustasse o foco, poderia ver com detalhes o que acontecia a 20 quilômetros abaixo.

  Ele pressionara um dos botões, ajustando o foco e mirando o rio que corria lá embaixo. Nenhum sinal de Suicune a suas margens, nenhuma ocorrência fora do normal, como saques, depredações, ou algum desastre natural. Só um bando de Wooper descendo pela corrente, um Stantler indo beber água e um ninho de Hoothoots.

  Ia focar num ponto mais adiante quando sentiu os ventos mudarem um pouco, uma rajada repentina, do tipo que já se acostumara. Não era apenas às variações atmosféricas que estava sujeito, mas também às variações de humor dos Pokémon, tanto selvagens quanto dos dele.

  A súbita aragem acabara o levando para os arredores de Ecruteak. Com um gesto e um movimento de perna, ele indicara ao Jumpluff que iria descer por lá. O Pokémon descia de forma gradual e constante, num pouso suave próximo à entrada da cidade.

  O treinador sorrira, agradecendo o Pokémon pela viagem antes de retorná-lo a sua Pokébola. Num gesto automático, ele passara uma das mãos pelos cabelos castanhos, tentando arrumá-los, enquanto a outra alisava o paletó lilás.

  Era como se sua vida fosse feita de coincidências, já que nunca seguia um rumo pré-estabelecido, simplesmente deixava a vida lhe levar. Bem, se já estava ali, porque não dar um pulo no ginásio? Havia mesmo uma questão que vinha lhe incomodando há algum tempo, e talvez Morty saberia lhe responder, ou, ao menos, dar uma dica.


  A porta do ginásio entreaberta indicava que o líder não estava por lá, mas deixara o local à disposição dos desafiantes que quisessem treinar com os monges ali presentes. Diante daquela ausência, Eusine decidira conferir mais um local, a Torre de Estanho. Cumprimentando os guardas na entrada, seguiu até os aposentos mais embrenhados do monastério, uma pequena sala de leitura que antecedia a enorme biblioteca de Ecruteak.

  Era estranho ver o líder em roupas tão sóbrias e escuras, ao invés do usual azul-celeste. Morty estava ali, cercado por livros e tabelas, manuseando um tomo antigo, tão distraído que nem notara sua entrada. Mas bastou alguns passos adentro para que sentisse um calafrio, uma frieza que emanava de repente, repleta de hostilidade.

  {Você. 'Tava demorando para aparecer}.


  O tom que o recepcionara era acusatório e cortante, penetrando seus pensamentos.

  {Você só vem quando é do seu interesse. Acha que tudo gira ao seu redor, sanguessuga egocêntrico}?!!

  Ele tentara replicar, em pensamento, uma vez que o líder continuava focado nos livros. Ele não conseguia se comunicar de outra maneira, era como se tivesse congelado, sequer podia liberar seus fantasmas para se defender daquele.

  — Ganger?

  Morty olhara para o lado, para o Gengar, estranhando alguma coisa, e o fantasma deixara de fazer o que quer que estava fazendo com ele, permitindo que finalmente se movesse e se comunicasse.

  — Morty?

  — Hm. Oi.

  Havia alguma estranha com ele, nunca o ouvira assim tão cansado, desanimado.

  — Não está no ginásio?

  — Tenho prova amanhã. Seja o que for que o professor Mukai estiver planejando, não deve ser pior do que o original.

  — Ah. Não desistiu do curso, né? – porque ele mesmo largara o curso logo no terceiro semestre.

  — Não, ainda não. E você, já se decidiu o que vai fazer na vida?

  Morty comentara, num tom sarcástico, mas também abatido, exaurido. Quantas atribuições ele tinha? Líder de ginásio, estudante da faculdade, e...

  Guardião de Ecruteak. Era muito para uma só pessoa. Ainda mais tão de repente. A raiva do Gengar não era injustificada, de fato, agora ele mesmo se incriminava e se culpava. Devia é ter dado menos tempo ao amigo e ter se intrometido mais, o ajudado, ao invés de se afastar. Demorara um tanto para responder, pensando se sua escolha podia ser útil.

  — Carreira militar, talvez?

  Considerando seu trabalho de agente a paisana, era mais ou menos isso que estava pensando em seguir.

  — Ah, eu não faria isso se fosse você.

  Uma voz aguda de trinado o alertara, complacente. Eusine tinha quase certeza que se referia a ele, até o monge comentar com o líder.

  — Acho que não conta como exercício se você sabe o texto de cor.

  Subitamente, as páginas do tomo foram folheadas, como se fossem movidas por um vento súbito, mas Morty nem piscara. Na certa, fora obra do Pokémon do monge, um Lampent muito mais simpático do que o Gengar no momento. O lampião fantasmagórico carregava um pratinho com dangos e dois copos de chá, e os deixara na mesa.

  Já o monge se aproximara deles, trazendo um livro grosso, a encadernação avermelhada combinando com o manto escarlate que usava.

  — Você pode ficar com a tradução, não, senhor Minami? Assim poderá comparar o texto quando Morty tiver terminado com o original.

  — Hm, sim.

  Eusine concordara, atônito, enquanto o monge se retirara junto a seu Pokémon, o fantasma de fogo balançando suavemente, como se acompanhasse uma canção. Certamente estava grato pelo dango, mas parecia um tanto inconsequente deixar aqueles doces perto de exemplares tão antigos. Aquela preocupação deve ter ficado evidente em seu rosto, para o líder comentar, cucando a folha do original.

  — Salvaguarda {Safeguard}.

  Não sabia que aquele movimento também podia ser aplicado a objetos. Depois daquele pequeno comentário, o líder voltara sua atenção para traduzir o novo trecho, sem ânimo para conversar, ou então, realmente concentrado naquela tarefa. Seguindo sua deixa, Eusine também ficara em silêncio, observando o amigo fazer anotações em outro papel, recorrer às tabelas ali espalhadas, e ás vezes olhando para o alto, como se decidisse qual termo usar. Vez ou outra ele riscava uma palavra que tinha escrito, substituindo-a por outra.

  Nunca pensava que um texto tão pequeno pudesse dar tanto trabalho. Vendo mais de perto, dava para notar como Morty estava extenuado, mas o olhar do líder estava focado, determinado a dar o melhor de si naquela tradução --- e em todo o restante que tinha que fazer.

  O jovem fechara o seu bloco de anotações, deixando as tabelas e o original na mesa ao lado.

  — Terminei.

  — Hmm. Que tal você ler em voz alta enquanto eu leio a tradução? Vai ser mais rápido para comparar.


    — Certo. – o líder pigarreara, e logo enunciara suas anotações, o resultado do seu empenho até agora naquela tarefa.



  "Benções fugazes"

    O surgimento de Ho-oh após a queda da Torre de Bronze nos trouxe esperança. Mas essa esperança, aos poucos e cada vez mais forte, foi desaparecendo... Ho-oh não retornara, e nossas súplicas foram em vão, Sua ausência era nossa punição.

  Nossos campos, outrora tão férteis, estavam definhando. Mal conseguíamos produzir o suficiente para nos sustentar após o embate, o ar ainda estava denso com a fumaça dos corpos, o solo fora contaminado por sangue e sal, as águas turvas por conta do barro e dos destroços.

  Quando tudo parecia perdido, eles vieram, silenciosamente, tão subitamente que parecia que já estavam ali o tempo todo. O trio régio que acompanhara a visita de Ho-oh retornara a cidade, e por um instante, nós tememos o pior, tememos a retaliação daqueles que abandonamos em meio às chamas.

  O mais alto deles, de pelagem castanha como a lenha, cujas costas ondulavam com fumaça, rugira como um vulcão em erupção. A terra tremera com o som, o calor emanava do solo, e mudos ficamos, sem saber o que fazer, sem ter como reagir.

  E o mais baixo, com o dorso arroxeado como nuvens de tempestade, amarelo como areia, grunhira como o trovão. O ar ficara carregado com a estática dos relâmpagos, que se estendiam como uma rede, purgando o céu de suas cores, da fumaça que oprimia a cidade.

  O último deles, azul como o reflexo de um lago, com sua juba deslizando como a aurora, sibilara como o vento, como o gélido vento norte. A água do rio e dos lagos represados encrespara com a brisa, que dissolvera a lama e os destroços, tornando-a límpida e cristalina.

  E tão rápido como surgiram, eles desapareceram, correndo cada um numa direção, sumindo de vista, antes que pudéssemos lhe agradecer, antes que pudéssemos apagar o rancor de pensar que Ho-oh nos abandonara.


  Eusine piscara algumas vezes após ele concluir a leitura, os olhos arregalados pela incredulidade.

  — Eusine?

  — Incrível... – ele demorara um pouco para responder. — Você conseguiu traduzir o texto quase sem nenhum erro.

  O líder ficara calado, duvidando que sua perícia na tradução fosse o que tanto impressionara o amigo. Eusine queria perguntar mais, mas no fundo sabia que seria muito egoísmo de sua parte. O olhar censurante do Gengar reforçava a opinião. Num tom hesitante e desajeitado, o jovem sugerira:

  — Ei, Morty... O que você acha de fazemos... uma pausa?

  
THE GAME CAN BE PLAYED. HOWEVER, PROGRESS CANNOT BE SAVED.
 

  • Imagens: screenshot do anime e da série Gerações, pixiv.net/member.php?id=583069 e pixiv.net/member.php?id=354634
  • Dango = bolinho japonês feito de farinha de arroz, servido geralmente em três porções num espetinho.
  • Usei trio régio para designar as feras lendárias pelo fato dos nomes terem um radical que remente à realeza (kun = monarca, kō e kōtei = imperador)
  • Com os principais protagonistas e vilões já apresentados, faltava mencionar os rivais.
  • Para ler os demais saves: clique aqui!



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