Pokémon GX 007: Encontros

Rui praticamente o rebocara para longe dali, forçando-o a subir a ladeira. Bom, ao menos o fato dela lhe ter arrastado morro acima o impedira de ter que ficar ali embaixo lidando com toda aquela gente.

SAVE 007 - Vila Ágata
(Encontros)

   Gonzap se certificara de sair dali o quanto antes, mas tinha um sorrisinho como o de quem escondia alguma coisa, como quem acabara de aprontar com o garoto. Ignorando esse sinal, Wes voltara para a vila, tomando uma baita surpresa ao entrar.

SE PREFERIR, dê o play na música, a sensação será bem melhor, a batida dá um clima maior →


   Por toda a parte, os galhos das árvores seguravam grinaldas de flores e pisca-piscas, dando um ar festivo ao local, e uma pequena multidão o aguardava. Rui, Eagun, Beluh, Fateen (ela previra aquilo?), Megg, Nett, Bitt, Perr, Marcia, Secc, toda a Kids Grid, Duking, Silva, Cail, Reath, Ferma, Sherles, Johnson (estranho eles estarem no mesmo lugar), Agnol, Ancha (ainda bem que não estavam filmando!), o pessoal da Praça do Duelo (menos Emok, é claro), Justy, Vander, Makan, Willie, o cara da Plataforma da Periferia, e muito mais… se tivesse os meios, Wes já teria arranjando um jeito de sair dali.

   — q-QuÊ? Pp-pra quÊ tudo isso? – ele gaguejara, quase se engasgara, de tão chocado.

   — Só uma festinha de despedida, Wes.

   Eagun colocara, mas na opinião de Wes, tinha muita gente para ser só uma “festinha”. E qual era a necessidade daquilo?!! Será que não poderia simplesmente ficar quietinho dentro do Centro, cuidando dos preparativos da viagem?

   — Você fez muito por Orre, jovem. Por que não agradecer? – Vander dissera, e o ruivo de bandana completara.

   — É por conta da casa!

   — Vem, Wes! Deixe eu te mostrar o que a gente fez!

   A garota praticamente o rebocara para longe dali, o arrastando pela mão, forçando-o a subir a ladeira. Bom, ao menos o fato dela lhe ter arrastado morro acima o impedira de ter que ficar ali embaixo lidando com toda aquela gente e sendo forçado a falar alguma coisa. Rui o levara para o ponto mais alto da vila, e lá de cima, dava para ver a multidão que se aglomerava perto do mercado, onde várias mesas foram colocadas. Muitos se serviam dos petiscos oferecidos, Vander comentava alguma coisa com a senhora da creche, Mina; e Cail negociava alguma coisa com Divel, aparentemente sem sucesso.


   Era tão estranho saber do nome de cada um ali, ele que nunca ligara para as pessoas. Os únicos a quem dirigia um pouco mais de cordialidade eram os idosos, por uma questão de respeito, e as atendentes do Centro, por cuidarem de seus Pokémon. Fora isso, estava pouco se lixando para as pessoas de Orre. Elas nunca lhe deram nada, nunca lhe ajudaram, isso quando não vinham acusá-lo ou coisa pior.

   “Você fez muito por Orre”.

   Não fora por Orre que fizera tudo aquilo. Mas, ao longo do tempo, percebera que não eram só os Pokémon que eram vítimas da Cipher. Não eram só eles que estavam sendo usados como cobaia, que estavam sendo forçados a fazer o que não queriam, que se prejudicaram em prol dos objetivos daquela organização. Treinadores que eram só mais uma variável em teste, operários que se matavam de trabalhar para erguer a Torre Realgam, cidadães que não tinham escolha a não ser acatar com aquelas ordens. A Cipher chegara a tal ponto que mal se contestava sua presença, qualquer resistência era logo abafada.

   Mas havia quem lutasse mesmo assim. E foi com a ajuda daquelas pessoas que conseguiu livrar a região da Cipher. Por menor que fosse o auxílio, junto aos outros tivera grande efeito. As informações obtidas pela Kids Grid, a perícia de Nett, o conhecimento de Vander, a experiência de Eagun, a prestatividade das enfermeiras do Centro, até mesmo a ajuda “involuntária” do pessoal de Pirite. Sem falar na visão de Rui.

   Por mais que destestasse admitir, não fizera tudo sozinho.

   — Não ficou bom? Passamos a tarde inteira montando.

   Pela dimensão da decoração, obviamente não haveria como uma só pessoa arrumar tudo aquilo. Os pilares fincados na margem do rio, e as guirlandas que os ligavam; pareciam formar torii* improvisados, ornamentados por sinos e lanternas de papel que pendiam das linhas. Luzes misteriosas brilhavam perto das cascatas, e a brisa carregava as pétalas das grinaldas que enfeitavam as árvores e também as colunas colocadas em cada canto da vila. Era um belo arranjo, mas parecia muito deslocado em seu propósito, embora estranhamente familiar...

   — E da onde veio essa decoração toda?

   — Do festival do Viajante do Tempo. Acontece de quatro em quatro anos, mas hoje fizemos mais cedo.

   Ele se lembrara do termo, não se referia ao lendário Celebi? Agora se lembrava, fazia anos que não ia àquele festival.

   — Isso não seria… desrespeitoso ou algo assim? – Wes contestara.

   — Todo mundo gosta de festas. Não teria problema em antecipar.

   — Hm. Certo.

   A voz dele indicava sutil discordância, para alguém que nem acreditava em lendários até ser agraciado com sua presença, Wes podia ser bastante supersticioso. Ou partilhava do mesmo sentimento de indignação de ver suas coisas sendo usadas por outros, em ver sua finalidade desvirtuada.

   — Pena que você perdeu a melhor parte. A cerimônia dos ofudas, sabe?


   Um gosto amargo que não combinava com o clima festivo subiu a garganta, e ele soltara uma frase, tentando ser educado.

   — Hmm. O que foi que você pediu?

   O tom dele já deixava claro que não acreditava nesse tipo de coisa e que só disfarçara por conta da opinião dela. Mas Rui não se incomodara.

   — Quero ser uma Guardiã da Aura.

   Dava para notar a convicção e o desejo dela. Aquela cerimônia era um ritual de comprometimento e esperança, onde se anotava no papel o que se esperava para o futuro. Ainda se lembrava do que anotara num papel há tanto tempo atrás, e o que acontecera anos mais tarde.

   Não havia um ditado que dizia, "cuidado com o que você deseja"? Não queria mencionar isso. Não queria ser tão pessimista. Por isso demorara tanto para responder.

   — Boa sorte.

Ele fechara o punho, e só ali que se dera conta que ela estava segurando sua mão. Já Rui se desgrudara da mão dele, alarmada.

    — Ah! – ela exclamara, como se lembrasse de alguma coisa, e retirara algo do bolso do casaco de brim claro.

   — Falando nisso… nesse época não devemos olhar só para o futuro, mas para o passado também. Agradecer pelo que nos foi dado.


Ah sim, ele se lembrara da outra parte do festival, das flores sobre a água. Gracidea.

   — Eu sei que não é muito, e talvez tenha ficado meio estranho… É um pingente. É para você.

   Não esperava por aquilo, que ela também fosse lhe agradecer. Para ele era quase uma obrigação diante do favor que ela lhe fez, em abrir os olhos. Wes pegou cuidadosamente o objeto, uma corrente prateada cujo final tinha uma pena e uma pedra.

   — Foi você que fez? – ele perguntara, avaliando o adereço, as peças não combinavam, mas estavam unidas com esmero.

   — Bem… tive que pedir para juntar tudo. Mas as coisas são minhas.

   — Essa pena… é da onde eu penso que é? – ele dissera, surpreso, ao notar a coloração da pluma.

   — Sim. Ficou algumas no chão, eu peguei de lembrança.

   O jovem colocara o cordão, o vermelho da pena contrastando com o azul de seu sobretudo. Ele pegou a ponta, admirando sua beleza.

   — É tão... bonita. Não é? Olha só as cores.

   — Que bom que você gostou. – ela dissera, radiante.

   — Espera, eu também tenho uma coisa para você. Não sou muito bom em escolher essas coisas de menina, mas… Espero que você goste.

   Ele tirou uma caixinha da bolsa azul que levava a tiracolo, a entregado para a garota. Ela ficara boquiaberta com o gesto, e hesitante, abriu a caixinha. Lá dentro, descansava um solitário brinco de topázio amarelo-azulado.

   — É tão lindo! – ela exclamara, radiante, os olhos azuis brilhando. — Me ajuda a colocar, Wes?

   Um tanto constrangido, ele tirara a joia, abrindo o brinco para colocar na orelha dela, se perguntando por que raios ela não conseguiria fazer isso. O fecho nem era tão complicado assim. Depois do momento embaraçoso, ela colocara uma das mechas ruivas atrás da orelha, ressaltando o presente.

   — Sabe de uma coisa? É a mesma pedra. Coincidência, não acha?

   — Hm. É. – apesar de discordar (porque a cor era bem diferente para ser a mesma), ele não iria se manifestar.

   — Obrigada.

   Rui colocara a mão nos ombros dele, se apoiando nas costas de Wes, e ela aproveitou para dar um beijinho na bochecha, deixando o jovem ainda mais sem jeito.

   — N-não precisava.

   Seria menos constrangedor se ela apenas se manisfestasse por palavras, gestos como aquele o deixavam sem graça. Mas havia quem achasse aquele tipo de reação divertida. Do alto, com ar de riso, uma luz esverdeada dançava em meio às outras. Afinal, não eram só os humanos que gostavam de festas…


SAVING…
 
  • Imagens: google.com, pixiv.net/member.php?id=64213 (enquadrada, com alterações:fundo), idem, google.com, artwork do TCG (Skyridge)
  • Outskirt Stand = Plataforma da Periferia, Daycare = creche, Realgam Tower = Torre Realgam, Torii = portão composto de dois pilares verticais, unidos no topo por uma trave horizontal, geralmente mais larga que a distância entre os postes. Normalmente presente na entrada de templos xintoístas.
  • Para ler os demais saves: clique aqui!



0 Comentários:

Postar um comentário

Seu comentário será publicado após a aprovação.
Comentários pejorativos e desviados do assunto abordado no post serão automaticamente excluídos.

A PBN agradece a sua participação!