Fanfic Capítulo 01: Game Over

Nosso protagonista sabe que nem sempre a vida é justa. Mas isso não o impede de ficar indignado com o ocorrido. E como miséria adora companhia, essa não vai ser a única notícia ruim que irá receber...
   

Capítulo 01 (Game Over)

   O silêncio e a solidão daquele bosque eram um alívio depois de dias sendo seguido por acusações à meia-voz e também a plenos pulmões. Apesar de todo o sangue-frio para não replicar as provocações, apesar de saber que tudo não passara de uma armação, de uma grande mentira; aquilo estava sendo demais para ele. Sem se dar conta do gesto, o jovem passou a mão pelo cabelo cor de areia, tentando varrer aqueles pensamentos. Mas, sem mais nada para lhe distrair, a questão logo veio à tona.
    

   Era o fim da Cipher. Sem mais Pokémon Sombrios, com o laboratório inutilizado, com o líder e seus subordinados presos, a organização estava com seus dias contados. Mas a Cipher também jogara sujo. Um simples recruta (um recruta mequetrefe!) fora capaz de acabar com sua reputação. Não que tivesse muita, mas…

   Todo o trabalho em pegar os Pokémon Sombrios… Todo o empenho para purifica-los… Todos os esforços para seguir os rastros da Cipher e colocar a organização inteira atrás das grades… Tudo fora pro lixo. Pro saco. Por água abaixo.

   A mera lembrança daquela injustiça bastava para que sua fachada calma desmoronasse, ele cerrara olhos e dentes, tentando conter sua revolta. Wes nunca fora muito de externar suas opiniões e sentimentos, há muito tempo o treinador fechara seu coração. A frustração o corroía por dentro, como um veneno, a fúria o estrangulava, tudo o que fizera dera em nada. Foi tudo ignorado, pior, fora considerado como um deles.

   O rapaz estava tão indignado que nem percebera o Espeon mexendo nos bolsos da barra do seu casacão azul. O felino de pelo lilás revirava metoticamente o sobretudo, ainda como um Eevee fora treinado para mexer em bolsas alheias sem que seus donos percebessem. Mas o psíquico não fuçava procurando petiscos ou coisa parecida, ele procurava por algo que tirasse Wes daquele estado.
    

   SE PREFERIR, a partir daqui, leia ouvindo essa música (CLIQUE AQUI). A atmosfera será mais introspectiva.
   

   Lá no fundo, junto com alguns discos e papéis dobrados, Ester achara o item que buscava, uma flauta de madeira ainda verde, tinha até algumas folhas na ponta. O Espeon pegara o instrumento, colocando-o com delicadeza no chão de pedra que se erguia no meio do matagal. O psíquico se curvara, soprando a flauta, tentando soprar, mas não houve nenhum som. Um outro Pokémon se aproximara, maior e com uma aparência mais vulpina, seus anéis brilhando no meio do pelo negro que se ocultava naquela muralha de pinheiros, trevos e samambaias.


   Diante das tentativas frustadas do irmão, o Umbreon resolvera ajudar, se agachando e grunhindo perto do bocal, mas não deu certo. O noturno enchera o peito e bufara, mas nada escapara da flauta. No entanto, aquilo chamara a atenção de Wes, que logo se levantara, indo ver o que aprontavam.

   — Ei, o que vocês dois estão fazendo??!

   O jovem dissera, mal-humorado, até ver a flauta no chão. Ele suspirara. 

   — Acho que só funciona em Pokémon, meninos.

   Ele notara o olhar de preocupação de suas Eeveelutions, e sua frustração se abrandara. Independente da situação, elas sempre procuravam fazer o melhor, fazer com que se sentisse melhor. Tinha sorte em tê-los sempre por perto. E ali perto dele, Wes notara o instrumento junto do pilar de pedra.

   Quantas vezes viera até ali, até aquela floresta, para purificar um Pokémon que pegara? Ele até sorrira diante da inversão dos fatos. Um sorriso um tanto irônico, os dentes se destacando na pele bronzeada, distorcendo levemente a marca que tinha no rosto.

   — Não se preocupem, a Cipher ainda não me transformou num “humano sombrio”.

   O jovem comentara, com certo escárnio, e guardara a flauta, um de seus maiores tesouros. Fazia par com a tabuleta de pedra em que estava entalhada, num idioma antigo, a história da Relíquia de Pedra. Ambos tinham forte ligação com o local, uma floresta de pinheiros ferrenhamente protegida pelos habitantes da Vila Ágata. Diziam eles que ali era um local de descanso do lendário Pokémon Celebi, que de tempos em tempos surgia por ali para desfrutar da sombra e água fresca da Floresta Relíquia.
    

   Os galhos das árvores deixavam o lugar numa suave penumbra, fora da plataforma de pedra, trevos e folhagens criavam um oceano verde, e ao longe, dava para ouvir o som de água corrente, do rio e das cascatas ali perto. Tudo era calmo e silencioso. De fato, era um lugar agradável para descansar, ainda mais depois de viajar por séculos. Com tantas idas e vindas, o viajante do tempo deixara sua marca naquele local.

   Pokémon que se aproximavam do pilar de pedra se lembravam de memórias passadas, as melhores memórias de sua vida, por mais que fossem distantes, segundo os aldeões. E Rui dissera que o local emanava uma aura apaziguadora; mas como ele não era Pokémon (nem paranormal), o ambiente não ajudava a esquecer de sua frustração, sua impotência, sua irrelevância, sua indecisão. Do que adiantava tamanha tranquilidade, sendo que por dentro estava totalmente inquieto, sem saber que rumo tomar?

   Ele derrotara e desmascarara o líder da Cipher. Expulsara os subordinados das cidades que outrora dominavam. Arruinara o laboratório. E tinha capturado e purificado todos os Pokémon Sombrios. Mas o que fazer com tantos? Deixá-los nas caixas de sua conta*? Não, não lhe parecia certo ficar a vida toda num ambiente virtual. Mas, também não ia devolvê-los às pessoas de quem pegara, tudo indicava que aqueles Pokémon eram roubados.

   É, aquele provérbio “Ladrão que rouba de ladrão, tem cem anos de perdão” nunca lhe parecera tão verdadeiro. A polícia em Orre decidira abafar essa parte do caso, não haveria espaço para prender tanta gente por receptação de Pokémon roubado, não havia provas concretas para tal.

   Até porque a maioria dos treinadores dos quais re-raptara os Pokémon sequer prestara queixa contra ele. “Vem fácil, vai fácil”. Os Pokémon Sombrios não obedeciam bem os comandos dados, algumas pessoas inclusive notaram que havia alguma coisa estranha, alguma coisa errada com eles. Muitos lhe disseram que iriam devolver o Pokémon, mesmo sendo mais forte do que os normais. Alguns até afirmaram que tinham medo de tamanha agressividade, que se arrependeram da decisão de aceitar aqueles Pokémon.

   Pokémon que tinham uma vida antes de serem pegos pela Cipher ou pela Snagem. O certo seria devolver a seus donos originais, de quem foram roubados; mas, como saber disso? Os Pokémon que roubara acabaram ficando com seu ID.* Se ao menos houvesse uma maneira de descobrir como…

   — Wes?

   Rui o chamara, estranhando a repentina ausência dele, ela fora procurá-lo. A garota ruiva podia ser um tanto mandona, mas se importava com Pokémon tanto quanto ele. A jovem parecia estar hesitante, indecisa, o que era um grande contraste com sua personalidade alegre e estonteante. Parecia que tinha uma má notícia para dar.

   — Sim, Rui?

   Ele se voltara para a garota, quem mais iria lhe procurar, ainda mais ali? Logo ela esclarecera o que tanto a incomodava.

   — Umnnnn… eu recebi um telefonema de casa.

   — Aconteceu alguma coisa?

   Ele perguntara, ligeiramente alarmado, seus olhos num amarelo temeroso, imaginando o pior, que alguma tragédia tivesse se abatido sobre a família dela.

   — Não… Papai ligou só para me lembrar… que as minhas férias estão no fim. – ela dissera, tentando tranquilizá-lo, não haveria motivo para alarde.

   — Ah. Certo.

   Rui fora franca com ele, assim que se conheceram. Ela estava de férias, indo visitar seus avôs na Vila Ágata, quando o ônibus parara para reparos na cidade de Pirite. Ao dar uma volta pela cidade, a garota acabara sendo raptada por uns capachos da Cipher; por ver (literalmente) o que havia de errado com os Pokémon Sombrios. Ela era a única que conseguira notar que havia alguma coisa errada. Uma fúria descontrolada, um poder terrível, e uma aura negra como piche.

   E Wes aproveitara aquele dom para identificar quem era quem. Ele sabia que aquela aliança era temporária, mas mesmo assim… por que se sentia tão magoado, tão… traído?

   — Eu vou para Gateon na semana que vem, mas… Mas isso não quer dizer que a gente nunca mais vai se ver!!!! – ela protestara. — Eu tenho seu e-mail, seu número, e não quero --- não quero que a gente se separe, só por conta disso!!!!

   — Eu também.

   Ele admitira, numa voz baixa e apressada, como se tivesse vergonha daquele sentimento. Ele contestara, disfarçando sua tentativa para fazê-la ficar.

   — Mas, por que você tem quer ir? Não pode ficar nem mais um pouco?

   — Não. Eu estou voltando para Unova para começar meu treinamento. Minhas habilidades me colocaram em problemas, mas também posso ter problemas se… se eu não dominá-las.

   Ela lhe parecera hesitante, apreensiva; então ele ironizara, gesticulando exageradamente, tentando fazer graça da situação.

   — Hmn. Então… você vai ser uma mestra paranormal ou algo assim? 

   — Não, bobinho. Vou ser uma guardiã da Aura.

   — Parece um título muito imponente para quem só tem um metro e meio*.

   Wes provocara, desde que se conheceram ela testara os limites de sua paciência. Mas também, Rui foi marcando presença aos poucos… foi uma das poucas pessoas a quem confidenciara seu passado, e foi uma das poucas que o aceitara. Sendo assim…

   — Bem, se você quiser, pode ligar para mim a qualquer hora. Não sei se posso ajudar em alguma coisa com seu treinamento, mas…

   — Tem uma coisa em que você pode me ajudar.

   — No que seria?

   Ele perguntara, surpreso, sem esconder seu espanto, num nítido estranhamento. Como uma pessoa “normal” poderia ajudar num treinamento “paranormal”?
   
   SAVING…


  • Imagens: xxxsak-hi.deviantart.com, artwork do TCG (Undauted e XY promo), screenshot do jogo
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Nota da autora:

   Como especificado no trailer do projeto, esta será uma fanfic, uma proposta de sequel de Pokémon Colosseum e de Pokémon XD, visando à divulgação dos jogos e de algumas matérias. Apesar de fortemente influenciada pelos jogos, a fic terá alguns aspectos do mangá, do TCG e do anime.

   Golpes, itens e a maioria dos termos e localidades estarão em português. Nem sempre será uma tradução exata e nem sempre será a oficial, mas espero manter o significado sem sacrificar a fluência. De qualquer forma, termos no original estarão entre chaves e na cor cinza. Esclarecimentos sobre determinada escolha estarão nas notas.

  • Relic Stone = Relíquia de Pedra, Relic Forest = Floresta Relíquia, Shadow Pokémon = Pokémon Sombrio, ID = Redução de ID number.
  • Bem, essa é minha interpretação do conceito de “PC” e “box”. Porque dá para pegar seus Pokémon em qualquer computador da esquina? Na minha visão, os treinadores têm contas (tendo o ID como login) numa nuvem (do Bill, por exemplo) pertencente ao Sistema de Armazenamento Pokémon, que também abrange um modelo (como o modelo OCI) que permite que Pokémon sejam transferidos ou retirados do mundo virtual.
  • Nesta fic Rui tem 1,62 m.


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