Gardevoir e Gallade, aquilo que não parece ser o que é

Por favor, leiam com a mente aberta...
É só uma história, certo?



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              Gardevoir atravessou a pintura, desta vez despedaçando a moldura do quadro em fiapos de madeira finíssimos — ela costumava se safar da realidade para se distrair. Do outro lado, ela se deparou com um laguinho inundando a porta redonda que lhe permitia entrar no mundo das suas lembranças. Ela se ajoelhou, colocou as mãos dentro da água e saciou a sede que queimava em sua garganta, bebendo daquela água até, por fim, quase se engasgar. Por alguns segundos sentiu que havia se embebedado.
              Ela passou pelo lago, não foi muito difícil. Abriu a portinha e finalmente chegou... Ao invés de se incomodar com as insuficiências — Gardevoir sentia fome, sede, outra vez, e frio —, ela se prendeu aos detalhes do âmbito que se formava além do que seus olhos conseguiam enxergar. Avistou um horizonte que não parecia ter um início ou um fim. Era como se algo copiasse o que ela já conseguia ver. Era um reflexo? Aquilo era... — “Essa sou eu?” — um espelho? Gardevoir via sua própria imagem. Estava descabelada, encardida. Ela deu alguns passos para frente, se aproximando do espelho. Lá no meio da imagem existia uma árvore.
              Seus galhos descascados e envergados eram visíveis a Gardevoir, mesmo ela estando distante. A árvore era balançada de um lado para o outro pela ventania forte que a circundava como um redemoinho. Em cima dela existiam estrelas... Gardevoir se encantou ainda mais ao perceber que as folhas da árvore se desfaziam pouco a pouco, tornavam-se poeira e a poeira se espelhava pelo céu, criando ainda mais estrelas. Elas se espalhavam cada vez mais; cobria as montanhas, o lago, as nuvens. Gardevoir deixou escapar algumas lágrimas, estava sem fôlego. Parecia que todas as vezes que piscava os olhos, um novo acontecimento a fascinava.
              Era uma explosão de emoções.
              Estava viva em seu próprio mundo perfeito. E se não bastasse tanta superioridade, entre um intervalo a outro, Gardevoir percebeu algumas flores espelhadas por debaixo da árvore, ornamentando suas raízes. Ela se ajoelhou, encostando seu dedo em uma rosa. Foi então que, ao erguer mais a cabeça e se virar, Gardevoir viu, no reflexo do grande espelho, uma coroa de lírios e jasmim emaranhado aos seus cabelos curtos. Gostou do que viu.
              Estava bonita.


              — Está perdida?
              Gardevoir ouviu alguma falar às suas costas. Ela se virou e se deparou com um Gallade. Era jovem. Suas expressões inocentes a avaliavam com uma curiosidade inconsciente. Gardevoir não queria responder, se calaria até que ele cansasse e partisse.
              — Eu a vi sozinha... — Gallade sussurrou. Sua voz era doce, tão calma e silenciosa quanto um entardecer — E vim saber se a senhorita precisava de alguma coisa.
              — Posso me virar sozinha, obrigada — disse Gardevoir em uma voz baixa, olhando irritada para além de Gallade por um momento.
              — O que faz por aqui? — ele perguntou, percebendo na mesma hora que seu tom era muito acusador. A pergunta soou rude, bisbilhoteira.
              Gardevoir piscou seus olhos largos, deixando por isso mesmo, e Gallade quase explodiu de curiosidade. Ele percebeu que respirava com mais facilidade, agora; a agonia estava se tornando mais sustentável através da familiaridade.
              — Por favor, deixe-me ajudar— Gallade insistiu. Talvez sua cortesia a fizesse responder suas perguntas enquanto fosse rude o suficiente para perguntá-las. Gardevoir encarou silenciosamente as suas mãos. Isso deixou o deixou impaciente...
              — Daqui a algumas horas é a minha coroação, e eu adoraria... — sussurrou Gardevoir.
              — Ah, majestade!
              Gallade se ajoelhou, abaixando a cabeça.
              Gardevoir continuou, sorrindo.
              — Apresentar-me na cerimonia com uma Hortência presa ao meu cabelo. É uma flor. Era a preferida da minha mãe. Achei que a encontraria aqui, mas não a vejo em lugar nenhum.
              — Eu sei onde encontrá-la, alteza — disse Gallade ainda com a cabeça baixa — Posso levá-la ao lugar e trazê-la a salvo para a coroação, minha rainha.
              — Não sei se devo...
              — Todas as estrelas estão desaparecendo, veja — Gallade se levantou, apontando para cima da grande árvore. O céu foi mudando para um arroxeado melancólico pontilhado de minúsculas estrelas prateadas, e não tardou paraque elas se desfizessem — Apenas tente não se preocupar, você as verá novamente algum dia. Prometo trazê-la de volta.


* * *
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              Gallade a levou para além das montanhas. Enjoada, Gardevoir mal conseguia caminhar. A coroa de flores ameaçando cair todas as vezes que ela cambaleava. Gallade a sustentava com as mãos e carinhosamente ajeitava a coroa, pegando-a com delicadeza como se ele as tivesse feito com as próprias mãos. Gardevoir limpou o vestido branco que trajava, dando algumas palmadas, percebendo, no fim, que ele a impedia de prosseguir. Ela o rasgou. Gallade se assustou com a cena e se perguntou se Gardevoir era mesmo uma rainha.
              Eles entraram em uma caverna escura e fria. Gallade sentiu que Gardevoir não conseguiria mais continuar. Estava cansada demais, assim como ele, que, ofegante, ajudou-a a se sentar, para logo em seguida se deitar naquele chão pedregoso.
              — Eu sinto muito — ele disse e sua voz ainda era gentil. A sua tristeza o fazia sentir estranhamento impotente. Desejava que houvesse algo que pudesse fazer...
              E então houve uma explosão.
              Gallade foi jogado para longe, batendo a cabeça com força em uma pedra. Gardevoir se levantou, automaticamente, como se suas pernas não estivessem tremendo. Eles foram atacados por três Pokémon selvagens: Drapion, Arbok e Houndoom. Eles rugiam e ameaçavam atacá-los mais uma vez; a boca de Houndoom soltava fumaça, enquanto Drapion abria e fechava suas garras e Arbok deslizava silenciosamente para mais perto de Gallade.
              — Majestade — murmurou Gallade, fraco — Afasta-se, posso protegê-la!
              Mas Gardevoir não o ouvia. Com um aceno de mão, ela fez com que Arbok levitasse. Seus olhos brilharam como faróis e ela arremessou a cobra para o fundo da caverna. Ao mesmo tempo em que formou um esfera negra com as duas mãos e a arremessou em direção a Houndoom e Drapion. Contudo, antes do golpe se quer ameaçá-los, Houndoom engoliu aquele Shadow Ball como se ele não fosse nada, deliciando-se. Drapion contra atacou formando um X com as duas garras e partindo para cima de Gardevoir. Ela criou um campo de força, protegendo-se do golpe e afastando Drapion para longe.
              — Alteza — disse Gallade com raiva, tentando se levantar.
              Quando Houndoom avançou com a boca coberta de chamas, Gardevoir sentiu o momento da conexão, pois foi maior do que qualquer coisa. A pedra que carregava em seu colar brilhou com intensidade. Sentia seu coração se rasgar em vários pedaços. A dor não a fazia gemer, nem de longe; era um êxtase, uma dor disfarçada de febre. Seu vestido se avolumava, seu corpo estava se transformando aos poucos. Envolta com aqueles traços, depois de alguns momentos de encanto, Gardevoir sentiu que mudança se encerrara. Piscou os olhos, uma força descomunal deslizava pelas veias do seu corpo. Sentiu-a queimar... Quanto poder! Gardevoir parecia se fascinar com a independência. Não tinha se arrependido nem um pouco de ter se aventurado com Gallade, ou de simplesmente existir ali, naquele lugar, e estar enfrentando três Pokémon poderosos sozinha. Mas sentia a euforia cobri-la como a sombra de um manto, deixando-a fresca e silenciosa como um entardecer. Não esperava que Gallade ou qualquer outra Pokémon viesse socorrê-la. Ela não esperava por um fim. 

              Não.
              Ela era em si, o próprio fim.
              Gardevoir gritou e seu corpo se acendeu. Ela sugou a energia da lua e formou um Moonblast tão poderoso que despedaçou o chão debaixo de si e afastou os Pokémon só com a sua presença. Ela apontou a esfera maciça e a disparou como se fosse um canhão. Houndoom e Arbok receberam o poder de frente, e seus corpos não eram mais vistos. Contudo, Drapion se abaixou e deslizou seu corpo de escorpião por debaixo da energia, surpreendendo Gardevoir de costas. O Pokémon iria parti-la em dois com um possante Poison Jab. Mas ele nem ao menos teve a oportunidade de tocá-la. Ao invés de atravessar seu vestido branco, ele atravessou um corpo molenga, uma armadura que algum dia resistiu a golpes mais poderosos que aquele.
              Gallade caiu de joelhou e depois engoliu poeira.
              O ódio foi maior do que qualquer coisa naquele momento. Gardevoir usou seu poder psíquico e fez com que Drapion fosse reduzido a cinzas. A mega evolução se desfez e ela se ajoelhou perante o corpo trêmulo de Gallade. Não havia beleza na morte, entendia isso, agora.
              — Fale comigo, por favor — disse Gardevoir, seus lábios tremiam.
              — Ah, minha rainha, perdão pela minha falha...
              — Do que está falando?
              — Eu não consegui levá-la até as hortênsias, alteza. E nem conseguirei levá-la de volta. Falhei em todos os sentidos, pois nem ao menos a protegi.
              — Ah, Gallade, você fez mais por mim do que qualquer outra pessoa. E você nem ao menos sabe da verdade. Se soubesse... —Gardevoir abaixou a cabeça e seu vestido estava sujo de sangue — Se arrependeria por ter prometido me trazer e por ter me conhecido. É triste te ver partir e não conseguir fazer nada. Eu deveria ir e não você.
              — Não ouse se martirizar por mim.
              — Gallade, eu...
              — Se tiver algo para me falar, minha rainha, fale antes que eu sucumba.
              — Eu não sou o que você acha que eu sou.
              Gallade sorriu.
              — Não é uma rainha?
              — Eu sou um... — Gardevoir fez uma careta de choro, seus olhos se estreitando e sua boca se retorcendo. Ela não era uma vítima. Não queria uma audiência para sua dor — Digamos que minha aparência não descreve o que eu sou de verdade. Não sou uma Gardevoir fêmea, Gallade. E isso é desagradável, eu sei, mas ninguém mais do que eu está sofrendo com isso agora. Nunca me importei, isso sempre foi um mero detalhe. Mas agora... Eu te enganei.
              Gallade a olhava espantado. Mas não havia dor no seu semblante. Não havia arrogância. Não havia desprezo. Só paz e tranquilidade. Ele sorriu e acariciou o rosto de Gardevoir como se ele fosse feito de porcelana; frágil, sensível e mortal.


              — Que continue sendo um mero detalhe, minha rainha — sussurrou Gallade. Ele não conseguiu permanecer com a mão no rosto de Gardevoir e ela deslizou lentamente, mas não chegou a cair, pois foi pega por Gardevoir, que a colocou em cima do seu peito.
              — Há muita coisa que eu poderia falar sobre você agora. Que é teimoso, intenso, impaciente... E, de longe, a melhor coisa que já me aconteceu — ela disse sorrindo. Seus olhos se encontraram e Gallade sorriu também. Eles sorriam juntos pela e impossível felicidade do momento.
              — E então o cordeiro se apaixona pelo leão — ele murmurou. Gardevoir escondeu os olhos para não mostrar o quanto eles haviam ficado felizes com a palavra.
              — Que leão idiota — ela suspirou.
              — Que cordeiro doente e masoquista — Ele olhou para a caverna cheia de sombras eGardevoir ficou imaginando onde seus pensamentos haviam o levado.

* * *
Se encontrar algum erro, por favor, realmente desconsidere. Não tive tempo para revisar e quase nem tive tempo de escrever. Perdoem-me qualquer erro :( 
Obs: Peguei um diálogo bem famoso de Crepúsculo para colocar aqui. É só uma referência de que eles aparentemente não poderiam ficar juntos.

6 comentários:

  1. Eu e minha Dominique. Que lindo mas triste. :( Nossos Pokemons preferidos. Hall faz uma história feliz igual a milha. :) E para músicas: Shake the Disease e Enjoy the Silence. Depeche Mode. Aí sim seria eu e a Dominique total. :D Mas fora isso o texto está muito bem escrito Hal. Prossiga assim. Sem crepúsculo é claro. ;D

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  2. Olha, eu realmente amei este texto, já li vários desse gênero, mas nunca cheguei a comentar algum, eu não esperava esta revelação, e ela ficou perfeita na história, muito lindo me emocionei ♡ obrigado por me proporcionar esta leitura, bom trabalho

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  3. Ai que história fofa♡. Adorei, é importante esse tipo de coisa quando se trata de um game onde a maioria não é desconstruído quando o assunto é gênero/sexualidade (por mais que sejam pokémons, a história é ótima e importante para abrir a mente de alguns fãs)

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    1. Apoiadissmo (a), há certos pontos que Pokémon não foca, tipo eles sao "animais" eu sou completamente a favor de uma série do Pokemon para passar no Animal Planet contando suas histórias individuais e como vivem, se o Hall fizesse seria Perfeito.

      Cheers. O Gallade.

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  4. Achei linda história, gostei do jeito como você usa a tristeza parabéns

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