Contos de Terror: O Último Degrau da Escada [+14]

Você realmente está pronto?
Só leia se tiver certeza...


             Recebi a carta de Ravenna ontem, em um daqueles dias em que tudo que queremos é o aconchego da nossa cama, os travesseiros bem alinhados, confortáveis e acolchoados. Estava endereçada a Solaceon, Sinnoh, e já me mudei duas vezes desde então. O que me fazia crer que já havia um bom tempo que aquela mensagem rodava pelas ruas da cidade ou pelos malotes empoeirados dos correios. Sua carta estava suja e amarrotada, uma das pontas dobradas devido ao manuseio. Li o que dizia...

             Não posso dizer que a primeira coisa que veio à minha mente foi o desespero, porque eu estaria mentindo. Não somente para aqueles que me leem, mas para mim mesmo. De fato, o terror estava contido naquelas palavras escritas, eu podia senti-lo ao passar meus dedos levemente por aquela tinta gasta de caneta. Ela escrevera com tanto desespero — suponho eu — que deixara transparecer no que escrevia exatamente aquilo que estava sentindo; não somente o medo - ele estava bem visível, inclusive -, mas a desgraça de se estar só.

             Quando nossos pais se separaram, sabíamos que teríamos que seguir caminhos diferentes. Não por opção ou capricho, mas por necessidade. Tínhamos nosso sonhos, como qualquer outra pessoa. Iguais àquelas que nos julgavam por não nos sentimos tristes e desolados quando nossos pais morreram. Sim, aqueles dias foram os mais sombrios. Os mais escuros. Os mais solitários... Era triste, aquelas paredes recém pintadas, cheirando a tinta fresca, pareciam se transformar em espelhos, pareciam gostar de refletir nossa própria dor. Lembrava-nos onde estávamos, nos lembrava do que aconteceu. Aqueles foram os dias em que eu me recusava a olhar no espelho, me recusava a ver as olheiras aprofundando meus olhos, rodeando-os como uma bactéria. Meus cabelos assanhados, mal cuidados, cheirando a pó; mas o reflexo das paredes pintadas insistia em escancarar o que tinha em mim de mais humano. Eu não podia culpá-las...

             Mas aquilo não iria diminuir a minha dor.

             Quando terminei de ler aquela carta, o que veio à minha mente foi mais desafiador do que temer. Eu me sentia culpado por deixá-la só, por acreditar que Ravenna poderia, muito bem, cuidar de si mesma e dos sonhos que almejava. Ela me parecia tão confiante nas vezes em que me ligou, dizia, alegre, o quanto estava feliz por ter conseguido um bom emprego no Centro Pokémon, ajudaria a enfermeira Joy, faria o que sempre quis. De todos da nossa casa, Ravenna era a que mais parecia se comunicar bem com os Pokémon. Os compreendia, não somente suas falas ou que queriam, mas seu modo de pensar; o modo de agir em determinadas situações. Ela via o que eles tinham de mais condolente.

             Mamãe sempre discutia com Ravenna quando ela trazia Pokémon feridos para dentro de casa. "Está sujando o soalho da casa, menina, não está vendo?", "Mal podemos sustentar vocês, Ravenna, e você me vem com um Pokémon aleijado, ferido, nos poupe de mais preocupação". Eu já havia decorado as falas da mamãe. Sempre que via Ravenna trazer algum deles para dentro de casa, eu fazia questão de avisá-la antes. "Ravenna, sabe o que mamãe vai dizer quando ver isso, não sabe?", mas nada adiantava. Ela parecia não temer a nossa mãe, iria enfrentá-la, se fosse pelo bem dos pobres coitados que ela carregava nos braços.

             Sempre admirei sua coragem. Sua determinação.

             O conteúdo da carta parecia me sufocar, agora. Guardei-a em um dos meus bolsos e fiquei ainda mais inquieto. Estava escurecendo e não havia luzes ligadas no meu quarto. Luz... Ravenna sempre gostou da luz. Ela me contou da vez em que salvou um Magcargo de ser afogado pelo riacho. Ela mal conseguia se aproximar dele por conta do calor que emanava, ficava rodeando-o, devagar, tentando ganhar sua confiança. Ela fazia isso não somente pelo desejo de salvá-lo - este era o maior deles -, mas pelo fato de se sentir bem perto daquela luz. Beirava o final do dia, o crepúsculo enfeitando o céu, e aquele calor era seu único companheiro, assim como também parecia ser o de Magcargo. Ravenna parou de rodeá-lo e simplesmente se ajoelhou. Ainda lembro bem da maneira como ela gargalhou quando me disse "Ele achava que eu estava sucumbindo ao calor, deve ser por isso que o diminuiu e se sentiu mais a vontade. Eu percebi isso, por isso o deixei ficar confortável. Mas minha atuação não durou muito. Ele percebeu que eu respirava, então desistiu de resistir e desmaiou, coitado, estava exausto, você tinha que ver o corpo dele borbulhando e soltando vapor".

             Eu iria visitar Ravenna, mas não sem um presente. Eu queria entender o que alguém como ela gostaria de ter. Ou melhor, o que alguém no estado de Ravenna gostaria de ter. Por isso achei que a mesma luz que Magcargo a oferecera naquela noite, poderia oferecer, outra vez, nesse momento tão difícil para nós. Coloquei um calção, calcei uma sandália qualquer que estava espalhada na bagunça do meu apartamento e me aventurei naquele frio de fim de noite, naquelas ruas escuras, sem um pé de gente. Fui abocanhado pelo ar, gélido, ameaçava me sufocar. Enfrentei-o e após andar algumas quadras, avistei um Lampent pendurado em um poste. Estava apagado e eu não sabia se ele estava fingindo, dormindo ou se, de fato, morrera congelado pelo frio. O vi lá de baixo, insignificante. Tentei chamar sua atenção, atrai-lo com minha presença, mas ele nem ao menos se moveu. Peguei uma pedra do chão, apalpei-a a minha mão e a atirei com força, esperando que o acordasse.

             E ele acordou.


             Capturei aquele Lampent sem muito esforço. Ravenna gostaria de tê-lo por perto. Ele tinha uma luz forte, iluminou a sala do meu apartamento por completo quando o libertei e o deixei pendurado próximo à janela. Seus olhos eram inexpressivos, parecia não haver nada ali, não era nem ao menos oco, pois eu via fumaça. Arrisquei-me em olhar o que tinha dentro do seu lustre, mas fui pego de surpresa quando ele me afastou com seus aros de ferro; eram quentes, me queimaram com leveza. Decidi me aquietar e ir tomar banho, o voo sairia daqui há algumas horas e minha mala nem ao menos estava pronta.

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             Quanto calor... Eu sentia Lampent incendiar o ambiente debaixo do chuveiro, enquanto sentia a água respingar em mim. Era daquilo que Ravenna precisava; de um calor imaculado. Sair do chuveiro e calcei as mesmas sandálias, como também o mesmo short, não estavam sujos e eram os mais confortáveis que eu tinha no guarda-roupa. Bem agasalhado, peguei minha mala já pronta e a Pokébola de Lampent, mas nos corredores da casa percebi que a sala estava escura, fria, solitária, a janela aberta, o vento entrando de soslaio. 


             Onde estava Lampent?

             Procurei-o pela sala, nos quartos, no banheiro, não o encontrei. O táxi estava vindo, eu perderia meu voo se continuasse naquela brincadeira de esconde-esconde, mas eu não poderia ir sem o Lampent. Portanto, disquei o número do taxista e confiei que ele o atendesse com rapidez. A voz do homem era atenciosa quando atendeu, sutil. Perguntei onde estava, ele me disse que a poucos quarteirões. Quer dizer que eu tinha muito pouco tempo para procurar Lampent. Larguei o gancho e senti um calor por detrás de mim. Aquecia-me. Era agradável. Virei-me e não vi ninguém, apenas uma sombra se esvaziando no fim do corredor. Com passos lentos a segui, percebendo o quanto o ar parecia exaurir e fugir de mim. Não existia frio. Não mais. E por mais que eu gostasse de me sentir aquecido, o calor que o ambiente se adequava me sufocava mais do que aquecia.

             Depois de alguns passos, meu coração acelerado, cheguei ao fim do corredor. Todas as portas estavam abertas, exceto uma. A do fim, onde eu guardava os lençóis de cama e minhas bugigangas. Lampent se escondera ali por qual motivo? Questionei-me mais do que temi.

             Comecei a caminhar e vi o quanto aquela madeira parecia ranger. Não lembrava de tê-la visto desta forma, em outras ocasiões. Fosse o que fosse, me deixara, de fato, assustado. Eu olhava para dentro do quartos sempre que passava em frente a eles; as portas estavam arreganhadas, riscadas, o que acontecera? Quando finalmente parei em frente à última porta, o ar sumiu de vez. Agi no modo automático, coloquei minha mão à maçaneta quente e a girei. E a última coisa que vi foram dois olhos brancos com órbitas lilás.

             "Tolo..."

             Chandelure me disse.

             E me senti ser sugado.


             Eu ainda conseguia ver o que acontecia, mesmo em meio às chamas. Era como estar preso; eu conseguia imaginar o tormento dos presidários, agora, porque eu havia me tornado um. Levou alguns minutos para eu perceber que estava dentro de algo, de uma fornalha de fogo, pois eu sentia o ardor, o fogo dilacerar minha pele, incendiar meu cérebro, meus cabelos, sentia meus órgãos se desgrudarem de mim. E através dos olhos de Chandelure, pude vê-lo agir. Eu tinha lido algo a respeito "Chandelure costuma engolir a alma de suas vitimas para alimentar suas próprias chamas"; só não sabia que se tratava de algo tão literal.

             O vi pegar um papel, não sei bem como escreveu. Colocou a carta em cima das minhas malas e encostou seu corpo flutuante na Pokébola, que se abriu; depois, apaguei.

             Quando acordei, meu corpo não doía, mas eu via o estrago que o fogo fizera comigo. Eu estava menos do que um humano, menos do que um cadáver. A pele do meu corpo havia se soltado, se desgrudado de mim; meus olhos derramavam lágrimas de sangue e minha boca salivava fumaça; o odor de carne queimada penetrava no meu nariz, afogava-me em uma onda de terror e desespero; mas nada, exatamente nada me deixou tão assustado quanto os números que eu via, agora, cravados em uma porta de linóleo "767". Era...

            Era o apartamento da minha irmã.


             Eu vi o taxista bater duas vezes na porta. Eu vi Chandelure chamuscar faminto. E, infelizmente, eu vi minha irmã... Sempre me perguntei como seria vê-la depois de tantos anos, qual seria a sensação de abraçá-la e senti seu corpo como um casulo de paz e tranquilidade. Jamais imaginei que a veria desta forma. Chandelure foi entregue a minha irmã, sem as minhas malas - perguntei-me o que será que teria acontecido com elas. Ela ficou sem entender por alguns segundos, observava-o alegre, mas temente. Como fazia frio e Chandelure estava apagado, Ravenna entrou. Eu não conseguia vê-la mais. Estava escuro.

             Quando o fogo se acendeu, a única coisa que vi foi o piso de madeira ranger quando Ravenna pisou no último degrau da escada. Eu me lembrava bem dele, fora ali que um dia ela quebrou a perna enquanto brincávamos de esconde-esconde. Ele afundara uma vez mais depois que papai o consertou, não imaginava que Ravenna ainda o tivesse deixado lá. Meus olhos ficaram turvos quando Chandelure flutuou. Ele pousou em cima do criado-mudo de Ravenna e se acendou. Ela o olhava, ainda estava admirada. Despiu-se e se aconchegou na cama, pronta para dormir. As luzes piscaram duas vezes mais e o que vi me atormentou quase semelhantemente ao fogo do inferno que eu sentia dilacerar meu corpo. Chandelure arreganhara sua luminária, os vidros se dilareceram, faminto. Por sorte, Chandelure bateu no alarme, que despertou, acordando Ravenna. Ela se assustou o viu, de boca aberta, assustador. Jogou os lençóis no chão e saiu em disparada, para longe do quarto, quebrando a maçaneta da porta e se jogando escada abaixo, pulando de dois em dois degraus. Chandelure a observava do topo, como se nada temesse.


             Ravenna pisou no último degrau da escada, que se abriu, prendendo seu pé. Em silêncio, Chandelure flutuou em direção a ela, deixando fumaça no ar, derramando um pó negro no chão, sombreando-o. Seu fogo queimava, me dilacerava, me consumia e enxugava minhas lágrimas antes que elas descessem. Ele sorria. Minha irmã gritava, rugia, batia no solado de madeira da escada, mas nada acontecia. Não se libertara. Eu tentei fechar os olhos para não ver, tentei, de verdade, e eu teria conseguido se minhas palpébras ainda estivessem inteiras. Pelo visto, o fogo fizeram bem seu trabalho em tragar cada parte do meu corpo.

            Eu o vi devorar Ravenna. 

            Eu o vi cuspir a fumaça que sobrara da sua alma.

            Eu o vi, em silêncio, se acomodar no último degrau da escada, onde ficou, quieto.

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Um comentário:

  1. NUNCA mais confio nos tipo fantasma.
    Aliás ótimo conto!

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